Nossa mãe acordaria a todos muito cedo para irmos à missa. Voltaríamos para casa. Teríamos um almoço especial. Passaríamos a tarde juntos. Pelo menos naquele dia, seríamos uma família. Nosso pai não iria jogar bola nem ficaria lendo seus jornais sozinho quando chegasse em casa. Nossa mãe não passaria o dia reclamando de tudo e de todos. E eu? Bem, se você estivesse aqui, ficaríamos em casa, juntas, conversando, como fizemos tantas e tantas vezes, sendo Páscoa ou não.
Era você que estava sempre presente, independente do dia, independente do humor. Um por um, amigos e família, poderiam me virar as costas. Menos você. Ah, você nunca falhava até o dia em que, inevitavelmente, falhou. Apesar de eu gostar de vê-la como uma parte orgânica de mim, você não era. Você era uma pessoa só, com idéias e sentimentos e vontades e um dia você os ouviria. Um dia... Um dia, você iria embora. Eu só não achei que seria tão cedo. Talvez eu não quisesse que fosse tão cedo.
Você era minha heroína, alguém a que eu aprendi a recorrer para tudo - do primeiro machucado à primeira desilusão, passando por todos os primeiros, segundos e por aí vai. Você transformava minhas lágrimas em risadas e então tudo estava bem. Com você, compartilhei meus medos e anseios, da prova difícil de matemática à briga com a melhor (depois de você, é claro) amiga, passando pela véspera da estréia no ballet. Foi para você que reservei minhas melhores qualidades e também para quem mostrei meus piores defeitos. Era você, você, você. Sempre você.
Até que você foi embora e eu precisei viver sem você. Eu gostaria de te culpar, mas seria injustiça - injustiça como cometi tantas e tantas vezes. Eu não fui para você o que você foi para mim, nem um milésimo disso. Eu poderia ter te ajudado, mas fui mais uma a cortar suas asas. Egoísmo sim. Não era que não achasse que você pudesse voar, mais do que ninguém, você podia. Eu apenas sabia que, quando você voasse, seria para bem longe de mim, para bem longe da nossa casa.
Eles também sentem sua falta, mesmo que eles nunca cheguem a admiti-la. Seu nome é proibido aqui. As memórias foram destruídas e reconstruídas até que você não fizesse mais parte delas. É como se você nunca tivesse existido, embora, dentro das paredes dessa casa, em cada cômodo, em cada objeto, sua ausência grite, querendo se libertar da prisão a que foi condenada. Prisão da qual você se livrou e deve estar aí pelo mundo, vivendo tudo que quis e nunca pode viver.
Para mim, seu nome não é tabu e você esteve presente em cada dia da minha vida. Eu me pego pensando, maravilhada, nas coisas que você deve estar fazendo, o mundo que você deve estar descobrindo. Fico morrendo de inveja dos amigos que você deve ter e que fazem parte de cada lembrança em que não estou. Mas espero que eles existem para amortecer as quedas - inevitáveis - da vida. Sei, por sentir na própria pele, como é difícil não ter alguém para te segurar quando você cai. Mas talvez... Talvez seja assim mesmo. Talvez, no fim das contas, a gente seja sempre sozinhos e nossos tombos e acertos sejam só nossos. Nada é pra sempre. Aprendi com você.
O que mais dói é que era para ser. Você é minha irmã e não deveria ser um objeto de censura na casa em que crescemos juntas e juntas descobrimos tantas e tantas coisas. Pode ser coisa de criança, mas, hoje, eu passei o dia todo olhando para as portas - da Igreja, de casa - na esperança de que você aparecesse. Na esperança de que você entrasse, sentasse e conversasse com a gente. Na esperança de que nossos pais não dissessem nada - nenhuma bronca, nenhuma crítica, apenas perdão. Na esperança de que as coisas voltassem a ser como eram nem que fosse apenas pelo dia de hoje.
Mas você não veio. Eles não tocaram no seu nome. Talvez você não esteja pronta para perdoar. Talvez eles não estejam prontos para perdoar. Não houve trégua.